O espelho do futuro: uma história que poderia ser a sua

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Augusto Cury /o texto é grande , mas compensa todo tempo de leitura!
O espelho do futuro: uma história que poderia ser a sua
Ronaldo se julgava o bom do pedaço, gostava de controlar a turma. Era musculoso, achava-se o bonitão da classe. Tinha um falar agressivo, não tinha medo de enfrentar seus colegas e desafiar seus professores. Não compreendia que o diálogo era a arma dos fortes e a agressividade, a ferramenta dos fracos.
Ronaldo não suportava ser contrariado. Ninguém lhe podia apontar um defeito. Se alguém o confrontasse, ele freqüentemente resolvia a intriga na brutalidade. O único foco de agressividade da escola era produzido por Ronaldo e sua turma. Sua classe era a mais difícil e resistente. Eles já estavam para terminar o ensino médio e muitos tentariam uma faculdade.
Ronaldo sabia da revolução que o time de professores liderados pelo professor Romanov estava fazendo na escola, mas resistia às mudanças. Ele era o aluno de melhor condição financeira. Como havia sido expulso de várias escolas por má conduta, como não havia solução para ele, fora transferido há dois anos para a famosa Escola dos Pesadelos.
O maior erro de Ronaldo era zombar dos alunos mais tímidos. Debochava deles na frente dos outros colegas, colocava apelidos que os humilhavam. Transformava-os em palhaços da platéia. Havia um colega de classe, chamado Paulo, que era o preferido para Ronaldo caçoar.
Paulo era calado e gordinho. Quase todos os dias Ronaldo o humilhava. Apesar dos professores fascinantes, Paulo perdeu o prazer de freqüentar as aulas. Sofria ocultamente pelos cantos da escola e nenhum colega ou professor enxergava sua dor.
Ao vê-lo aproximar-se, Ronaldo se transformava. Gritava bem alto: "Lá vem o botijão de gás" Às vezes, dava um grito imitando um filhote de elefante. Sua turma se esborrachava de rir. Tinha esse comportamento longe dos professores, pois sabia que eles já tinham feito uma campanha contra um tal de fenômeno bullying. Mas como nunca se ligava em campanhas, nem sabia do que se tratava.
Pouco a pouco, Paulo perdeu o brilho, não mais sorria, estava angustiado, deprimido, tinha constantes dores de cabeça e gastrite. Alguns alunos mais sensíveis não concordavam com as atitudes de Ronaldo, mas eram dominados por ele. Paulo era um palhaço de um circo do qual nunca quis participar.
Em alguns momentos, pensava que não mais valia a pena viver. Em outros, pensava em se vingar de todos os seus agressores. Como seus pais não tinham um diálogo aberto com ele, não percebiam a sua dor intensa. Paulo dizia apenas que queria mudar de escola, mas seus pais não permitiam.
O livro! Um amigo que pode mudar uma vida
Certa vez, o professor Romanov, ao sair da escola, viu Paulo abatido. Tentando disfarçar seus olhos molhados,

enxugou o rosto em sua camiseta, mas o professor percebeu. Chamou-o à parte e perguntou o que se escondia atrás da sua expressão facial.
— Se não sou digno que você se abra comigo, você tem
liberdade de partir — disse Romanov ao jovem.
Constrangido e pego de surpresa, pela primeira vez, falou da rejeição que sofria diariamente na escola e da sua crise depressiva. Disse que estava pensando em dar um fim na sua vida. Chocado, o professor entendeu que havia um aluno carrasco que não aprendera minimamente a arte da sensibilidade. Ronaldo não sabia colocar-se no lugar dos outros nem percebia as conseqüências do seu comportamento.
Romanov perturbou-se ao saber que, por mais esforço que fizesse, poderia ocorrer uma tragédia, um suicídio, diante dos seus olhos e dos olhos dos demais mestres. Colocou as mãos nos ombros do seu aluno e pediu para ele não desistir da vida.
No dia seguinte, deu-lhe um presente: um livro. E, instigando-lhe a inteligência, falou-lhe:
— Em alguns momentos difíceis de nossa vida, um bom
livro pode ser nosso melhor amigo. Você viaja enquanto lê,
você se procura nas linhas dos textos. Um bom livro pode
trazer força nas dificuldades, coragem na dor e inteligência nos
momentos em que ninguém o compreende.
Em seguida, afirmou:
— Paulo, nossos maiores inimigos não estão no exterior,
mas dentro de nós mesmos. O seu medo, raiva, sentimento de
inferioridade e de falta de sentido de vida é que o corrói. Não
se entregue.
Após essas rápidas palavras, o professor saiu. Não estava tranqüilo.
O professor encaminhou Paulo para a psicoterapia, mas seus pais não tinham dinheiro para pagar. O serviço público de

saúde oferecia o tratamento gratuito, mas só no papel, porque na prática demorava seis meses para se encontrar vaga.
Paulo pegou o livro. Não era alguém que amava ler. Mas estava tão desesperado que poderia tentar. O livro se chamava O vendedor de idéias. Tratava-se de uma ficção que contava a história de um personagem chamado Flávio, que outrora fora um brilhante professor universitário, que encantava seus alunos, mas um dia sua emoção passou por um vendaval. Perdeu sua família num acidente e desenvolveu uma grave depressão.
Flávio não via mais razão para viver, chorava com freqüência, não dormia, não se alimentava direito, isolava-se de todo mundo, inclusive da sala de aula. Foi incompreendido, desacreditado e rejeitado. Muitos achavam que ele não se levantaria mais. Perdeu dinheiro, trabalho e amigos.
Queria fugir do mundo, mas não conseguia fugir de si mesmo. Pensou em desistir da vida, mas felizmente não se abandonou. Com ajuda do seu psiquiatra e da psicóloga que o assistiu, procurou encontrar o mais brilhante de todos os endereços, o endereço dentro de si mesmo. Ao invés de lutar contra a vida, lutou a favor dela. Batalhou contra os fantasmas da sua mente, gerenciou seus pensamentos negativos e lentamente superou seu caos emocional.
Quando superou sua miséria emocional, ficou mais rico interiormente. Voltou a brilhar no pequeno e importantíssimo palco da sala de aula. Como professor, tornou-se um vendedor de idéias que estimulava a mente dos seus alunos a voar alto, a não ser vítima dos seus problemas, crises, humilhações, sentimentos de inferioridade.
A leitura do livro comoveu Paulo e o fez identificar-se com alguns aspectos do personagem. Viu que havia pessoas num estado pior que o dele, mas que ainda assim se superaram e se tornaram melhores do que eram. Ficou tão impressionado
com algumas frases que lera, que as anotou em todos os seus cadernos:
A grandeza de um ser humano não está no quanto ele sabe, mas no quanto ele tem consciência que não sabe. O destino não é freqüentemente inevitável, mas uma questão de escolha. Quem faz escolha, escreve sua própria história, constrói seus próprios caminhos.
Paulo convenceu-se de que sabia pouco sobre os mistérios da existência e sobre a própria vida. Sentiu que somente enxergando sua pequenez poderia tornar-se um grande ser humano.
Começou a perceber que ele mesmo era seu pior carrasco, que ninguém poderia fazer-lhe mal se ele não permitisse. Precisava fazer escolha, traçar seu destino. Foi apenas o começo de uma longa e sinuosa estrada que teria de percorrer. Ainda se sentia humilhado pelos seus colegas e tinha momentos de ataques de raiva, mas que nunca eram expressos.
Na semana posterior, o professor Romanov daria uma aula na sala de Paulo. Queria comentar o drama de Paulo, mas tratar esse assunto diretamente com Ronaldo era delicado. Se o professor chamasse a atenção de Ronaldo, achava que ele não seria transparente, negaria tudo o que Paulo havia dito. Portanto, não ajudaria nem um nem outro. Mas não podia ficar calado. Tinha algo muito importante para dizer a toda a turma.
Procurou a melhor forma de introduzir o assunto. Logo após dar sua aula de física, disse-lhes:
— A vida é como o movimento dos planetas, dá incontáveis voltas. Cuidado, turma: a pessoa que vocês desprezam hoje poderá ser o único ombro que vocês terão para chorar um dia.
Com incrível maestria, contou-lhes uma encantadora história que fez todo mundo refletir sobre seus comportamentos e seu futuro.
Disse que ser humilhado é uma das experiências mais angustiantes para o ser humano. Se não for superada, ela se torna inesquecível e devastadora. Contou uma marcante história que ocorreu nos EUA em 1980.
Havia um jovem cujo nome era David, que morava na periferia de Nova York. Ele era objeto de deboche, humilhação, de uma pequena gangue constituída de dez jovens da sua própria escola. A gangue era liderada por Robert.
David era retraído, isolado, tinha dificuldade de se enturmar com as garotas. Seu rosto era cheio de sardas e espinhas. Alguns o apelidaram de "Cratera" e, como tinha um péssimo desempenho no esporte, Robert o chamava de "desastre ambulante". Dizia que a melhor maneira de perder num esporte era convidá-lo a estar no seu time. Por duas vezes Robert o esbofeteou. Numa delas, arrancou sangue no canto esquerdo da sua boca.
Um dia, ao vê-lo passar, Robert colocou sutilmente um dos pés na sua frente e o fez tropeçar diante de todos. Os cadernos voaram e ele se esborrachou no chão. Foi um ato violento, covarde e sem nenhum motivo, apenas pelo prazer de vê-lo sofrer. Ninguém o ajudou a se levantar, nem recolheu sequer um de seus cadernos.
A turma morreu de rir. David levantou-se lentamente. Se reagisse, poderia ser espancado. Seus lábios se cortaram. Limpou o sangue com sua camisa e manchou-a. Com lágrimas descendo pelo rosto, olhou para Robert e balbuciou essas palavras:
— Espero que, um dia, se você cair e precisar de mim, eu o ajude a se levantar — e em silêncio recolheu seus cadernos.
Robert, querendo sair por cima, rebateu:

— Quem é você para me dar lição de moral, cara! Você é
que tropeçou em mim. Peça desculpa! Senão você vai ter de me
enfrentar.
Romanov disse que nesse momento Robert e sua gangue se levantaram para ameaçá-lo. Amedrontado, David abaixou a cabeça e disse baixinho:
— Desculpa.
Robert, como se fosse dono do futuro e do mundo, disse autoritariamente:
— Vê se se enxerga! Você é um pobretão.
Humilhado e ferido física e emocionalmente, David deixou
o ambiente. A condição financeira da família de Robert era muito boa. David era pobre, seus pais não tinham casa própria e o carro deles era o mais velho dos que apareciam na escola.
Robert achava que o dinheiro dos seus pais seria inesgotável. Suas roupas, seus tênis, seus sapatos, eram sempre degriffe. Era um consumista de primeira. Zombando de David, dizia que suas roupas eram da marca "MN": Marca Nenhuma.
Ronaldo se deliciava com a primeira parte da história. Identificava-se com o Robert, parecia um herói. Não sabia a catástrofe pela qual passaria.
Seguindo caminhos diferentes
O mestre da vida, Romanov, continuou a contar a segunda parte da história. Após terminar o ensino médio, a turma se separou. Cada aluno tomou um rumo. Alguns foram trabalhar, outros foram fazer faculdades e mudaram de bairro ou de cidade. David e Robert não se viram mais.
Robert casou-se, teve dois filhos. Como levava tudo na brincadeira, parou a faculdade no meio do curso, pediu dinheiro para o pai e montou uma empresa. Achava que ficaria rico em pouco tempo, pensava que o mundo se submeteria à sua força. Grande engano! Não sabia trabalhar em equipe, não criava oportunidades, nem pensava no amanhã. Só se preocupava com o prazer imediato. Faliu depois de um ano. Perdeu todo o dinheiro que seu pai lhe dera.
Em seguida, arrumou um emprego, mas ficou nele menos de um ano. Como não era gentil, solidário, teve atritos com alguns funcionários e, por isso, foi despedido. Arrumou outro, mas não se dedicava, sentia ciúme das pessoas, não sabia cooperar com seus colegas. Depois de seis meses, foi novamente despedido. Não parava em emprego algum.
Robert pegou dinheiro emprestado dos seus pais, que estavam agora atravessando uma crise financeira. Resolveu montar outro negócio próprio. Convenceu-os, dizendo que ficaria rico. Entretanto, mais uma vez, fracassou. Foi vítima de uma ferida mortal que destrói o sucesso de qualquer empresa: não planejou seus gastos e, além disso, gastava mais do que ganhava. Um ano e meio depois, Robert faliu de novo.
Romanov fitou a classe e disse:
- Como sempre foi um péssimo aluno na escola da vida, colhia os frutos que plantou. Nos últimos tempos, estava desempregado, só fazia serviços temporários aqui e acolá. O Robert autoritário dos tempos do colégio desapareceu. Andava ansioso, abatido. Sentia vergonha das pessoas. Atrasava o aluguel da casa.
Em seguida, continuou dizendo que o dinheiro que ganhava não dava para sustentar seus filhos. Seus pais o ajudavam, mas eles atravessaram uma crise financeira e haviam perdido quase tudo. Carro, nem pensar. O seu estava quebrado na garagem havia meses. Não tinha dinheiro para consertá-lo.
Fez entrevistas em várias empresas na esperança de que alguma o chamasse. Mas, nada. Um dia, desanimado, leu mais uma vez nos classificados de um jornal que uma empresa estava contratando novos funcionários. Mais do que depressa, arrumou-se e foi até ela.

O predador encontra a presa

Romanov comentou que era uma grande empresa. Possuía mais de mil funcionários. Seu escritório era enorme. A fachada era de vidro azul espelhado. Suas salas eram espaçosas. Robert ficou encantado. Deixou seu currículo e uma semana após foi chamado para a entrevista. Entretanto, havia uma fila enorme de pessoas sendo entrevistadas. Pensou: "Não vou conseguir". Entrou na fila e esperou. Após seis longas horas, chegou sua vez.
Logo antes de ser chamado para a entrevista, viu uma pessoa vindo em sua direção, cumprimentando a faxineira e o guarda do prédio. Pensou: "Esse coitado pensa que sendo gentil conseguirá um emprego aqui". Distraiu-se um pouco, deu alguns passos e, sem perceber, virou-se novamente e tropeçou justamente na pessoa que fazia aqueles cumprimentos. Caiu ao chão e a pessoa na qual tropeçou pediu desculpas e gentilmente o levantou.
Ao se levantar, Robert olhou fixamente para ela. Parecia que a conhecia. Em seguida, um estalido na memória.
— David! Eu não acredito, você aqui!
David estava mais magro, bem-arrumado, mas sem exagero. Ao se reconhecer, abraçaram-se. Robert tinha perdido uma boa parte do ar de prepotente devido às turbulências que passou na escola da vida. Mas, diante do David, não podia deixar de tirar uma casquinha. Fez uma pergunta tentando novamente humilhá-lo:
— E aí, David, há quanto tempo você está na fila?
— perguntou-lhe.
Humilde, como sempre, David respondeu:
— Desde as sete da manhã.
Robert fez os cálculos e exclamou:
— Caramba! Você já está há mais tempo do que eu e ainda
não foi atendido. — E, tentando ser superior, disse: — Talvez
seja porque seu currículo não seja bom.
- Talvez o seu seja melhor do que o meu — disse David.
— Creio que você está precisando mais desse emprego
do que eu.
— Creio que preciso mais dessa empresa do que você -
falou David com segurança e bom humor.
— Para conseguir um emprego aqui, o cara tem de ser
bom. Mas não desanime, você pode conseguir — comentou
Robert, querendo mostrar que sua capacidade era superior à de
seu ex-colega de classe.
— Você conhece o dono? Pode falar sobre mim? — pediu-
lhe David, pois havia várias vagas na empresa.
Orgulhoso, Robert lhe disse:
— Eu o conheço, mas não sei se posso dar-lhe uma força.
Vou tentar. — Despediram-se.
Um dos diretores da empresa, bem vestido, de terno e gravata, observava, admirado, a conversa dos dois. Quando David se afastou, ele veio lentamente e se aproximou de Robert:
— De onde o senhor conhece o dr. David?
- Dr. David? Ah! O David. Era meu colega de colégio.
Coitado, era o patinho feio da classe.
— Mas o homem com quem o senhor estava conversando
é o dono da empresa.
— Não, você está enganado. Ele é um coitado. Está há oito
horas na fila tentando arrumar um emprego.
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A presa encontra o predador
O funcionário insiste em dizer que Robert está enganado.
— Não, ele é o dono da empresa.
— Não é possível! Eu o conheço — disse Robert com ar
de deboche.
— Qual o nome todo dele? — perguntou Robert, já com
um nó na garganta.
— David Smith.
Robert engoliu saliva. Estava incrédulo, paralisado. Seu mundo desmoronou. Queria estar em qualquer lugar do mundo, mas não naquele local. Lembrou-se da violência que praticou contra David e até do sangue que lhe tirou. Começou a suar frio e ter taquicardia. Saiu da empresa mudo, desesperado, ansioso. Sentia tontura nas ruas. Mal conseguia ver os carros.
Romanov disse que Robert tinha certeza de que não seria ajudado, mas humilhado. Teve uma longa noite de insônia. Recordava de toda a sua agressividade e se perturbava. Não entendia por que David foi tão longe, se tornou tão rico, teve tanto sucesso, e ele só colecionou fracassos.
No outro dia, recebeu, logo pela manhã, um telefonema da empresa. Estava sendo chamado para uma segunda entrevista. Receoso, dirigiu-se para lá. Ao se apresentar na secretaria, recebeu o recado de que o dr. David queria falar pessoalmente com ele. Imaginou que o David devolveria toda a agressividade que recebeu. Ao entrar na sala, estava sem cor, trêmulo.
Ficou impressionado com o tamanho da sala. David pediu gentilmente para ele se sentar. Robert se afundou na cadeira. David propositadamente manteve o silêncio. Não falou nada. Com a voz embargada, Robert iniciou a conversa:
— Desculpe-me por tudo que fiz você sofrer na escola.
David lembrou-se das ofensas, das chacotas, das rejeições e da vez que Robert passou-lhe o pé e o fez cair diante dos amigos. Agora, as posições se inverteram. Tinha tudo para humilhar quem sempre o humilhou. A vingança estava em suas mãos, mas, caso se vingasse, não seria diferente dele. Com segurança, disse-lhe:
- Tive de aprender a pensar para sobreviver. Vivi longos
períodos de dor, isolamento, lágrimas silenciosas. Mas os
sofrimentos que você e outros colegas me causaram nutriram
minha força. Tive de ter grandes sonhos para me motivar a
superar os meus conflitos...
Fez uma pausa prolongada e expressou:
— Eu pensei seriamente, dia e noite, em vingar-me de você e de toda a turma, mas um dia eu li em um livro que a maior vingança que podemos fazer contra um inimigo é perdoá-lo. Se eu não os perdoasse, vocês viveriam dentro de mim, destruiriam meu prazer de viver e os meus projetos de vida, por isso há muito tempo eu os perdoei. Eu entendi que ninguém faz os outros infelizes, se primeiramente não for infeliz.
Robert, que sempre fora uma pedra de gelo, começou a se emocionar.
- Não se preocupe, meu amigo! — disse gentilmente
David, percebendo seu drama. — Olhei a sua ficha e vi que você
tem dois filhos. Sei que passou por várias dificuldades, ficou
desempregado um bom tempo e viveu um imenso deserto.
Gostaria de descobrir suas qualidades. Quero dar-lhe uma
oportunidade...
Robert ficou pasmo. A frase que David disse nos tempos de escola foi resgatada da sua memória e, como um raio, penetrou no palco da sua mente: "Espero que o dia em que você cair e precisar de mim, eu o ajude a se levantar!".

Em seguida, ligou para a sua secretária e pediu para chamar algumas pessoas que estavam na sala de espera. Eles entraram. Quando Robert os viu, quase desmaiou. Ficou ofegante, parecia um filme. As três pessoas que entraram pertenciam ao grupo que ele liderava. Todos estavam desempregados ou em empregos mal remunerados e David os empregou e os ajudou um por um. Tornaram-se funcionários da sua corporação.
Os três colegas sabiam do drama de Robert e comunicaram a David. Orientados pelo próprio David, eles fizeram chegar sigilosamente a Robert o jornal que anunciava a contratação de funcionários para a empresa. Foi assim que todo o episódio se desenrolou. Após se abraçarem, David disse a Robert:
— Que tal você trabalhar na área de recursos humanos?
Na área que, entre outras coisas, cuida da seleção, treinamento
e do bem-estar dos funcionários.
Perplexo, Robert comentou:
- Trabalhar na área de recursos humanos? Como poderei cuidar do bem-estar das pessoas, se não sei elogiar, se sempre fui agressivo, se nunca liderei ninguém?
David, interrompendo a fala de Robert, disse:
— Você maltratou a vida e a vida respondeu maltratando-
o. Você feriu e foi ferido pela vida. Você humilhou e foi
humilhado por ela. Muitos erram, mas poucos transformam
seus erros em experiência. Levante-se! Lute pelo que você
ama.
O grande empresário David, que tinha milhares de funcionários e não precisava curvar-se diante de ninguém, curvou-se humildemente diante de Robert para resgatá-lo do seu caos.
Nesse momento, Romanov fez uma pausa na sua história. Olhou para Ronaldo e percebeu que nessa terceira parte ele estava profundamente reflexivo. Foi um pequeno passo, mas importante começo para que ele tenha chance de sobreviver numa sociedade que exigia criatividade no lugar da força, ousadia no lugar da brutalidade, trabalho em equipe no lugar do individualismo.
O futuro tem muitos nomes
Em seguida, Romanov continuou dizendo que Robert se animou. Estava no fundo do poço, mas David o levantou. A presa valorizou seu predador e o transformou num ser humano.
Logo depois, David lhe contou qual foi um dos grandes amigos que mudou sua vida. Robert começou a pensar quem seria. David lhe disse:
- O livro! — Robert detestava ler. Em seguida, David
completou: — O livro é uma das maiores conquistas da
humanidade. O livro faz o ofegante respirar, o abatido animar-
se, o pensador encontrar idéias. Os livros fazem as crianças
terem sabedoria e os idosos voltar a ser crianças.
Robert ficou impressionado com a sabedoria de David, não imaginou que ele fosse tão inteligente. Para encorajá-lo ainda mais a mudar a sua história, David disse-lhe uma rica e profunda frase do brilhante escritor Victor Hugo:
- O futuro tem muitos nomes. Para os fracos, é o
inatingível. Para os temerosos, o desconhecido. Para os valentes,
é a oportunidade... Seja valente, mude o seu futuro. Agarre essa
oportunidade...
As palavras de David ecoaram dentro de Robert como uma bomba. Ele aceitou o desafio. Estava impressionado com a força e a coragem de alguém que ele considerava tão tímido e frágil. Agarrou como nunca a oportunidade que seu amigo lhe deu.
Aquele homem rude começou a ser lapidado. Aprendeu a ser pequeno para se tornar grande. Entendeu finalmente que ninguém é digno da sabedoria se não usar suas lágrimas para irrigá-la.
Romanov finalizou a sua história diante de uma classe completamente emudecida pelas lições que aprendeu. Antes de sair, escreveu na lousa:
As pessoas que hoje desprezamos ou fazemos tropeçar poderão um dia ser as mãos que ajudarão a nos levantar.
Paulo ficou impressionado com a história que ouviu. A leitura do livro com que o professor Romanov o presenteou já lhe havia causado grande impacto, agora entendeu que deveria deixar de ser vítima das agressividades dos seus colegas. Deveria usar as ofensas para irrigar a sua coragem. A partir daí, parou de se deprimir, de se intimidar. Quando alguém o humilhava, ele se protegia, não gravitava na órbita da opinião das pessoas. Não revidava, não agredia, mas traçava projetos de vida.
Por causa dessas atitudes, uma revolução passo a passo ocorreu em sua vida. Começou a ser mais solto e extrovertido. Era um aluno regular, sem expressão, tímido e inseguro. Mas começou a fazer perguntas na sala de aula e a debater com os professores o que não entendia. Todos ficaram impressionados com sua ousadia. Até suas notas melhoraram.
Paulo entendeu que bons alunos estão na escola para receber um diploma, mas alunos fascinantes estão para se preparar para a vida. Entendeu que os pais e professores podiam dar-lhe a caneta e o papel, mas só ele podia escrever a sua história.
No outro dia, presenteou Ronaldo com o livro O vendedor de idéias e escreveu uma frase do próprio livro:

Os frágeis querem controlar as pessoas, os fortes querem controlar o seu próprio ser. Descubra a sua verdadeira força.
Ronaldo agradeceu constrangido. Pela primeira vez, ficou mudo diante de Paulo. Alguns raios de luz entraram nos becos de sua personalidade diminuindo a sua arrogância, mas sua história ainda era uma incógnita. Ele teria de entender que o destino freqüentemente não é inevitável, mas uma questão de escolha. E ninguém poderia fazer as correções de suas rotas por ele.

Augusto Cury do livro Filhos brilhante, alunos fascinantes