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O Servo Bom

Onde está o sábio da Terra que já deu ao mundo tanta alegria quanto. a
carinhosa Maria de Magdala?
Levi, porém, não se dava por vencido e retrucava:
A necessidade sincera deve ser objeto incessante de nosso carinhoso interesse;
mas, em se tratando dos falsos mendigos, é preciso considerar que a palavra de
Deus nos tem vindo pelo Mestre, que nunca se cansa de nos aconselhar
vigilância. É imprescindível não viciarmos o sentimento de piedade, a ponto de
prejudicarmos os nossos irmãos no caminho da vida.O antigo cobrador de impostos expunha, assim, a sua maneira de ver; mas Filipe,
agarrando-se à letra dos ensinos, replicava com ênfase:
Continuarei acreditando que é mais fácil a passagem de um camelo pelo fundo de
uma agulha do que a entrada de um rico no Reino do Céu.
Jesus não participava dessas discussões, porém sentia as dúvidas que pairavam
no coração dos discípulos e, deixando-os entregues aos seus raciocínios próprios,
aguardava oportunklade para um esclarecimento geral.
*
Passava-se o tempo e as pequenas controvérsias continuavam acesas.
Chegara, porém, o dia em que o Mestre se ausentaria da Galiléia para a
derradeira viagem a Jerusalém. A sua última ida a Jericó, antes do suplício, era
aguardada com curiosidade imensa. Grandes multidões se apinhavam nas
estradas.
Um publicano abastado, de nome Zaqueu, conhecia o renome do Messias e
desejava vê-lo. Chefe prestigioso na sua cidade, homem rico e enérgico, Zaqueu
era, porém, de pequena estatura, tanto assim que, buscando satisfazer ao seu
vivo desejo, procurou acomodar-se sobre um sicômoro, levado pela ansiosa
expectativa com que esperava passagem de Jesus. Coração inundado de curiosidade e de sensações alegres,
o chefe publicano, ao aproximar-se o Messias, admirou-lhe o porte nobre e
simples, sentindo-se magnetizado pela sua indefinível simpatia. Altamente
surpreendido, verificou que o Mestre estacionara a seu lado e lhe dizia com acento
íntimo:
Zaqueu, desce dessa árvore, porque hoje necessito de tua hospitalidade e de tua
companhia.
Sem que pudesse traduzir o que se passava em seu coração, o publicano de
Jericó desceu de sua improvisada galeria, possuído de imenso júbilo. Abraçou-se
a Jesus com prazer espontâneo e ordenou todas as providências para que o
querido hóspede e sua comitiva fossem recebidos em casa com a maior alegria. O
Mestre deu o braço ao publicano e escutava, atento, as suas observações mais
insignificantes, com grande escândalo da maioria dos discípulos. “Não se tratava
de um rico que devia ser condenado?” perguntava Filipe a si próprio. E Simão
Pedro refletia intimamente: “Como justificar tudo isto, se Zaqueu é um homem de
dinheiro e pecador perante a lei?”
A breves instantes, porém, toda a comitiva penetrava na residência do publicano,
que não ocultava o seu contentamento inexcedível. Jesus lhe conquistara as
atenções, tocando-lhe as fibras mais íntimas do Espírito, com a sua presença
generosa. Tratava-se de um hóspede bem-amado, que lhe ficaria eternamente no
coração.
Aproximava-se o crepúsculo, quando Zaqueu mandou oferecer uma leve refeição
a todo o povo, em sinal de alegria, sentando-se com Jesus e os seus discípulos
sob um vasto alpendre. A palestra versava sobre a nova doutrina e, sabendo que
o Mestre não perdia ensejo de condenar as riquezas criminosas do mundo, o
publicano esclarecia, com toda a sinceridade de sua alma:
Senhor, é verdade que tenho sido observado como um homem de vida
reprovável; mas, desde muitos anos,venho procurando empregar o dinheiro de modo que represente benefícios para
todos os que me rodeiem na vida. Compreendendo que aqui em Jericó havia
muitos pais de família sem trabalho, organizei múltiplos serviços de criação de
animais e de cultivo permanente da terra. Até de Jerusalém, muitas famílias já
vieram buscar, em meus trabalhos, o indispensável recurso à vida!...
Abençoado seja o teu esforço! replicou Jesus, cheio de bondade.
Zaqueu ganhou novas forças e murmurou:
Os servos de minha casa nunca me encontraram sem a sincera disposição de
servi-los.
Regozijo-me contigo exclamou o Messias —, porque todos nós somos servos de
Nosso Pai.
O publicano, que tantas vezes fora injustamente acusado, experimentou grande
satisfação. A palavra de Jesus era uma recompensa valiosa à sua consciência
dedicada ao bem coletivo. Extasiado, levantou-se e, estendendo ao Cristo as
mãos, exclamou alegremente:
Senhor! Senhor! tão profunda é a minha alegria, que repartirei hoje, com todos os
necessitados, a metade dos meus bens, e, se nalguma coisa tenho prejudicado a
alguém, indenizá-lo-ei, quadruplicadamenteL..
Jesus o abraçou com um formoso sorriso e respondeu:
Bem-aventurado és tu que agora contemplas em tua casa a verdadeira salvação.
Alguns dos discípulos, notadamente Filipe e Simão, não conseguiam ocultar suas
deduções desagradáveis. Mais ou menos aferrados às leis judaicas e atentando
somente no sentido literal das lições do Messias, estranhavam aquela afabilidade
de Jesus, aprovando os atos de um rico do mundo, confessadamente publicano e
pecador. E como o dono da casa se ausentasse da reunião por alguns minutos, a
fim de providenciar sobre a vinda de
seus filhos para conhecerem o Messias, Pedro e outros prorromperam numa
chuva de pequeninas perguntas: Por que tamanha aprovação a um rico
mesquinho? As riquezas não eram condenadas pelo Evangelho do Reino? Por
que não se hospedarem numa casa humilde e, sim, naquela vivenda suntuosa, em
contraposição aos ensinos da humildade? Poderia alguém servir a Deus e ao
mundo de pecados?
O Mestre deixou que cessassem as interrogações e esclareceu com generosa
firmeza:
Amigos, acreditais, porventura, que o Evangelho tenha vindo ao mundo para
transformar todos os homens em miseráveis mendigos? Qual a esmola maior: a
que socorre as necessidades de um dia ou a que adota providências para uma
vida inteira? No mundo vivem os que entesouram na Terra e os que entesouram
no Céu. Os primeiros escondem suas possibilidades no cofre da ambição e do
egoísmo e, por vezes, atiram moedas douradas ao faminto que passa, procurando
livrar-se de sua presença; os segundos ligam suas existências a vidas numerosas,
fazendo de seus servos e dos auxiliares de esforços a continuação de sua própria
família. Estes últimos sabem empregar o sagrado depósito de Deus e são seus
mordomos fiéis, à face do mundo.
Os apóstolos ouviam-no, espantados. Filipe, desejoso de se justificar, depois da
argumentação incisiva do Cristo, exclamou:Senhor, eu não compreendia bem, porque trazia o meu pensamento fixado nos
pobres que a vossa bondade
nos ensinou a amar.
Entretanto, Filipe elucidou o Mestre —, é necessário não nos perdermos em
viciações do sentimento. Nunca ouviste falar numa terra pobre, numa árvore
pobre, em animais desamparados? E acima de tudo, nesses quadros da natureza
a que Zaqueu procura atender, não vês o homem, nosso irmão? Qual será o mais infeliz: o mendigo sem
responsabilidade, a não ser a de sua própria manutenção, ou um pai carregado de
filhinhos a lhe pedirem pão?
Como André o observasse, com grande brilho nos olhos, maravilhado com as
suas explicações, o Mestre acentuou:
Sim, amigos! ditosos os que repartirem os seus bens com os pobres; mas, bem-
aventurados também os que consagrarem suas possibilidades aos movimentos da
vida, cientes de que o mundo é um grande necessitado, e que sabem, assim,
servir a Deus com as riquezas que lhes foram confiadas!
*
Em seguida, Zaqueu mandou servir uma grande mesa ao Senhor e aos discípulos,
onde Jesus partiu o pão, partilhando do contentamento geral. Impulsionado por
um júbilo insopitável, o chefe publicano de Jericó apresentou seus filhos a Jesus e
mandou que seus servos festejassem aquela noite memorável para o seu
coração.
Nos terreiros amplos da casa, crianças e velhos felizes cantaram hinos de
cariciosa ventura, enquanto jovens em grande número tocavam flautas, enchendo
de harmonias o ambiente.
Foi então que Jesus, reunidos todos, contou a formosa parábola dos talentos,
conforme a narrativa dos apóstolos, e foi também que, pousando enternecido e
generoso olhar sobre a figura de Zaqueu, seus lábios divinos pronunciaram as
imorredouras palavras: “Bem-aventurado sejas tu, servo bom e fiel!”
: Humberto de Campos
Livro - 014 / Ano - 1942 / Editora - FEB
BOA NOVA
Chico Xavier